O caso da seita no Quênia que deixou pelo menos 109 mortos ganhou um novo capítulo com o resultado das autópsias realizadas nos corpos encontrados na floresta de Shakahola. Segundo as autoridades do país africano, algumas vítimas apresentavam ausência de órgãos.
Um documento judicial, com data de segunda-feira (8), indica que “laudos de autópsia revelaram que faltavam órgãos em alguns corpos das vítimas que foram exumados até agora”. O texto ainda menciona “tráfico de órgãos humanos bem coordenado que envolve vários atores”.
Até o momento, 101 corpos – a maioria de crianças – foram encontrados em valas comuns espalhadas pela floresta de Shakahola e oito pessoas chegaram a ser encontradas vivas, mas que não resistiram. Todos são vítimas da seita no Quênia que pregava o jejum total para encontrar Jesus. A suspeita é que o número de óbitos ainda possa aumentar.
Seita do Quênia que pregava jejum absoluto
A descoberta macabra de dezenas de corpos dos membros da autoproclamada ‘Good News International Church’ (Igreja Internacional da Boa Nova) começou em meados de abril.
A investigação iniciou em março quando um homem procurou a polícia para dizer que seu irmão e sua cunhada haviam deixado os filhos morreram de fome por ondem do chefe da seita, Makenzie Nthenge. Na ocasião, duas crianças foram encontradas enterradas em covas rasas na floresta e a terceira foi resgatada muito fraca, mas com vida.
Makenzie chegou a ser preso, mas acabou livre após pagar uma fiança de 10 mil xelins (R$ 368). Segundo uma testemunha, que foi expulsa da seita porque bebeu água em vez de jejuar até a morte, quando voltou ao acampamento na floresta, o líder antecipou a data do fim do mundo, antes prevista para agosto deste ano, para 15 de abril.
Ele então convocou uma reunião com todos os membros e declarou que os “escolhidos”, ou seja, seus seguidores, precisavam seguir em frente para encontrar Jesus antes do fim do mundo.
Em 13 de abril, uma denúncia informou as autoridades sobre a possível existência de uma vala comum no meio da floresta e polícia foi até o local. Naquele dia, 15 pessoas foram encontradas deitadas no chão, das quais quatro morreram antes de chegarem ao hospital devido ao estado de fraqueza e desnutrição.
A partir de então, agentes iniciaram buscas coordenadas em uma área de 800 acres da floresta Shakahola. Nos dias seguintes, inúmeros corpos começaram a ser localizados e seguidores que continuavam escondidos jejuando foram resgatados.
Makenzie virou pastor e criou a própria igreja em 2003, após desistir da profissão de taxista. De acordo com o site queniano ‘Citizen Digital’, seus ensinamentos são polêmicos como desencorajar as pessoas a buscarem tratamento médico, punir envolvimento dos seguidores em atividades sociais, afirmar que a constituição do Quênia é satânica, etc.
Familiares de fiéis afirmam que Makenzie fez uma lavagem cerebral nas vítimas e as convenceu a venderem suas casas para doar o patrimônio à igreja, a não mandarem mais os filhos para a escola e até queimou as credenciais acadêmicas de alguns.
Em março de 2017, a polícia revistou o complexo onde funcionava a ‘Igreja Internacional da Boa Nova’ em Malindi e encontrou 43 crianças vivendo no local, sem frequentar a escola. Na época, Makenzie foi acusado de oferecer educação em uma instalação não registrada, mas após um acordo pôde continuar com seus ensinamentos.
Já em 2019, as autoridades do Quênia ordenaram fechamento da seita, ocasião em que Makenzie fugiu com os seguidores para a floresta Shakahola, onde permaneceu com a sede da ‘igreja’ até ser preso.
Além do fundador da seita no Quênia, seis de seus seguidores também foram presos.
