O número de vítimas fatais da seita que pregava o jejum absoluto no Quênia subiu para 201 com a descoberta de 22 novos cadáveres, de acordo com as autoridades do país. A informação foi confirmada pela prefeita regional, Rhoda Onyancha, no último sábado (13).
Todos os mortos, em sua maioria crianças, eram seguidores da autoproclamada ‘Good News International Church’ (Igreja Internacional da Boa Nova), comandada por Makenzie Nthenge.
Ainda conforme Onyancha, 26 pessoas já foram presas por envolvimento no caso. Entre elas estão o líder Nthenge e membros de uma gangue contratada para vigiar os seguidores e se certificar de que eles não iriam quebrar o jejum ou fugir da floresta de Shakahola.
A prefeita ainda confirmou que recebeu denúncias sobre o desaparecimento de aproximadamente 600 pessoas, muitas delas moradoras de aldeias na região da floresta, e que as buscas por mais corpos serão retomadas nesta terça-feira (16), após uma interrupção de dois dias.
Mortes na seita do Quênia
De acordo com o legista do governo queniano, Johansen Oduor, as autópsias mostraram que a maioria das vítimas fatais da seita no Quênia morreram de fome, mas também existem indícios de que algumas delas tenham sido sufocadas, espancadas ou estranguladas.
No início de maio, as autoridades do país africano divulgaram que algumas vítimas apresentavam ausência de órgãos. Em um documento judicial, foi levantada a possibilidade de “tráfico de órgãos humanos bem coordenado” envolvendo “vários atores”.
Investigação
A descoberta macabra de dezenas de corpos dos membros da autoproclamada Igreja Internacional da Boa Nova começou em meados de abril.
A investigação iniciou em março quando um homem procurou a polícia para dizer que seu irmão e sua cunhada haviam deixado os filhos morreram de fome por ondem do chefe da seita, Makenzie Nthenge. Na ocasião, duas crianças foram encontradas enterradas em covas rasas na floresta e a terceira foi resgatada muito fraca, mas com vida.
Makenzie chegou a ser preso, mas acabou livre após pagar uma fiança de 10 mil xelins (R$ 368). Segundo uma testemunha, que foi expulsa da seita porque bebeu água em vez de jejuar até a morte, quando voltou ao acampamento na floresta, o líder antecipou a data do fim do mundo, antes prevista para agosto deste ano, para 15 de abril.
Ele então convocou uma reunião com todos os membros e declarou que os “escolhidos”, ou seja, seus seguidores, precisavam seguir em frente com o jejum para encontrar Jesus antes do fim do mundo.
Em 13 de abril, uma denúncia informou as autoridades sobre a possível existência de uma vala comum no meio da floresta e polícia foi até o local. Naquele dia, 15 pessoas vivas foram encontradas deitadas no chão, das quais quatro morreram antes de chegarem ao hospital devido ao estado de fraqueza e desnutrição.
A partir de então, agentes iniciaram buscas coordenadas em uma área de 800 acres da floresta Shakahola. Nos dias seguintes, inúmeros corpos começaram a ser localizados e seguidores que continuavam escondidos jejuando foram resgatados.
Quem é Makenzie Nthenge
Makenzie virou pastor e criou a própria igreja em 2003, após desistir da profissão de taxista. Seus ensinamentos são polêmicos como desencorajar as pessoas a buscarem tratamento médico, punir envolvimento dos seguidores em atividades sociais, afirmar que a constituição do Quênia é satânica, etc.
Familiares de fiéis afirmam que Makenzie fez uma lavagem cerebral nas vítimas e as convenceu a venderem suas casas para doar o patrimônio à igreja, a não mandarem mais os filhos para a escola e até queimou as credenciais acadêmicas de alguns.
Em março de 2017, a polícia revistou o complexo onde funcionava a ‘Igreja Internacional da Boa Nova’ em Malindi e encontrou 43 crianças vivendo no local, sem frequentar a escola. Na época, Makenzie foi acusado de oferecer educação em uma instalação não registrada, mas após um acordo pôde continuar com seus ensinamentos.
Já em 2019, as autoridades do Quênia ordenaram fechamento da seita, ocasião em que Makenzie fugiu com os seguidores para a floresta Shakahola, onde permaneceu com a sede da ‘igreja’ até ser preso.
